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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Jovens: uma opção preferencial

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Iniciamos o mês de outubro, e como alguns meses são muito expressivos e temáticos na Igreja no Brasil, o de outubro não é diferente. Mês do Rosário, dedicado às missões, convocando todo o povo de Deus a se fazerem missionários do Evangelho, que se inicia com a Semana Nacional da Vida e a celebração da Rainha e padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida; mês que rezamos pelas nossas crianças, para que tenham um futuro resguardado pela fé e esperança. Enfim, muitos são os motivos para rendermos graças ao Pai neste mês que se inicia, mas uma intenção especial requer nossa atenção, pois entre os dias 3 e 28 estará acontecendo, em Roma, o Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, com o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.
O tema foi estabelecido após uma consulta às Conferências Episcopais, às Igrejas Orientais Católicas, a União dos Superiores Gerais e a sugestão dos padres da última Assembleia Sinodal. Reúne, num único tema, as preocupações de bispos, padres, religiosos e religiosas, e até das Igrejas Orientais que representam um grande número de homens e mulheres preocupados com a evangelização dos jovens.
Pesquisas revelam que um bilhão e 800 mil pessoas entre 16 e 29 anos, isto é, ¼ da Humanidade, são os jovens do mundo. Só os números nos causam perplexidade, pois como anda a vida de fé e de compromisso comunitário desses jovens? No Instrumento de Trabalho do Sínodo, os padres sinodais puderam encontrar a descrição de sua variedade, suas esperanças e dificuldades, pois foi um momento de convergência da escuta de todos os componentes da Igreja e também de vozes que não pertencem a ela.
O Documento Preparatório, elaborado para consultar a Igreja no mundo inteiro, inicia dizendo que “através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa, inclusive nos dias de hoje. (…) ouvindo as suas aspirações, podemos entrever o mundo de amanhã que vem ao nosso encontro e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer”. O Papa também ouviu os jovens reunidos na semana anterior ao Domingo de Ramos, tanto presencialmente como virtualmente. Tudo isso foi acrescentando dados ao documento preparatório para a elaboração do instrumento de trabalho.
Esse material, enviado a todas as dioceses do mundo, foi estruturado em três partes: reconhecer, interpretar e escolher, buscando oferecer as chaves de leitura da realidade juvenil, baseando-se em diferentes fontes, entre as quais um questionário on-line que reuniu as respostas de mais de cem mil jovens.
Depois de viver neste último final de semana um belo encontro com os jovens da região junto aos Arcos da Lapa, aqui no Rio de Janeiro, e em preparação ao Dia Nacional da Juventude, somos chamados a refletir e a rezar juntos para que este tempo dedicado aos jovens nos ajude a esclarecer os caminhos a serem percorridos para que, jovens evangelizados, sejam sinais e evangelizem outros jovens.
A primeira parte trata dos “Jovens no Mundo de Hoje”, mundo que se transforma rapidamente em todos os sentidos. Este mundo que é multicultural e multirreligioso. Por ser de diferentes tradições religiosas, representa um desafio e uma oportunidade: pode aumentar a desorientação e a tentação ao relativismo, mas, ao mesmo tempo, cresce a possibilidade de confronto fecundo e de enriquecimento recíproco. A questão da multiculturalidade aparece nas chamadas “segundas gerações”, ou seja, jovens que crescem numa cultura diferente daquela em que cresceram seus pais. É o forte movimento migratório pelo mundo afora. Aos olhos da fé parece que este é um sinal do nosso tempo, o qual exige um crescimento na cultura da escuta, do respeito e do diálogo, enfim, da cultura do encontro. Outros elementos de análise que o texto sugere: Como vivem os jovens nas diversas partes do mundo? Como é trabalhada a inclusão dos jovens? Grande desafio representa o grande número de jovens que “nem estudam, nem trabalham, nem se educam para uma profissão”. Quais são as referências para os jovens que sejam próximas, credíveis, honestas?
Portanto, ao querermos responder esses desafios lançados pelo Papa Francisco, outros, de nossa realidade, também vão nascendo: o que querem os jovens de hoje? Sobretudo, o que buscam na Igreja? Em primeiro lugar, desejam uma “Igreja autêntica”, que brilhe por “exemplaridade, competência, corresponsabilidade e solidez cultural”, uma Igreja que compartilhe “sua situação de vida à luz do Evangelho, ao invés de fazer pregações”, uma Igreja que seja “transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa”. Enfim, uma Igreja “menos institucional e mais relacional, capaz de acolher sem julgar previamente, amiga e próxima, acolhedora e misericordiosa”.
Há também quem não pede nada à Igreja ou pede que seja deixado em paz, considerando-a uma interlocutora não significativa ou uma presença que “incomoda e irrita”. Um motivo para essa atitude está nos casos de escândalos sexuais e econômicos, como bem nos recordou o Santo Padre dias atrás, sobre os quais os jovens pedem à Igreja que “reforce sua política de tolerância zero”. Outro motivo está no despreparo dos ministros ordenados e na dificuldade da Igreja em explicar o motivo das próprias posições doutrinais e éticas diante da sociedade contemporânea.
Diante desses e outros desafios emergentes na evangelização de nossos jovens, devemos ter nítidos alguns métodos que podem nos ajudar nesse campo tão fértil e laborioso. A escuta: os jovens querem ser ouvidos com empatia; Acompanhamento: espiritual, psicológico, formativo, familiar e vocacional; Conversão: seja de tipo religioso, sistêmico, ecológico e cultural; Discernimento: uma das palavras mais usadas no documento, seja no sentido de uma “Igreja em saída” para responder às exigências dos jovens, seja como dinâmica espiritual; Desafios: discriminações religiosas, racismo, precariedade no trabalho, pobreza, dependência de drogas e álcool, bullying, exploração sexual, corrupção, tráfico de pessoas, educação e solidão; Vocação: repensar a pastoral juvenil; Santidade: o documento se concluiu com uma reflexão sobre a santidade, “porque a juventude é um tempo para a santidade”. Que a vida dos santos inspire os jovens de hoje a “cultivar a esperança” para que – como escreve o Papa Francisco na oração final do documento – os jovens, “com coragem, tomem as rédeas de sua vida, almejem as coisas mais belas e mais profundas, e mantenham sempre um coração livre”.
Não podemos esquecer a Conferência de Puebla, no México, em (1979), que assinalou: “Lembremos que a opção preferencial, definida em Puebla, é dupla: pelos pobres e pelos jovens. É significativo que a opção pela juventude seja, de maneira geral, totalmente silenciada”. Essa constatação é sintomática e nos leva a repensar seriamente sobre as práticas pastorais que tivemos no passado e o porquê do “silêncio” na atenção que deveria ter sido dada à juventude.
A convocação do Sínodo é uma atitude querida pelo Papa Francisco, que nos trará questões fundamentais para toda a vida pastoral da Igreja, nesta opção que a mesma Igreja é agora universalmente chamada a assumir. Não será um evento sem perspectivas, mas, ao contrário, nos trará incentivos e possibilidades de amadurecimento na ação missionária junto à juventude. O empenho de todos os que compõem o povo de Deus é condição sem a qual essa atenção, maternal e acolhedora, não terá o êxito querido pelo Santo Padre. Desde já, unamos nossa torcida para que o Sínodo projete luzes para compreendermos mais profundamente os muitos aspectos relevantes do mundo dos jovens e, assim, podermos levar a eles o Evangelho.

Fonte: http://arqrio.org/formacao/detalhes/2353/jovens-uma-opcao-preferencial

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Jovens: testemunhem publicamente sua fé!

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

Estamos a caminho da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos no Vaticano, Roma, que terá como tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Assunto importante para o momento atual. Os jovens são chamados ao encontro com Cristo e a viver com alegria sua vocação, seu chamado, principalmente sendo testemunha de Cristo Ressuscitado.
A humanidade, em sua essência, possui dificuldade, em certos aspectos, de ouvir algo e colocá-lo em atitudes cotidianas. Isso se demonstra através de toda história do povo de Deus retratada na Bíblia. No Antigo Testamento, o cenário mostra um povo que ouve a Palavra de Deus, através dos profetas, mas, passado certo tempo, esquece tudo aquilo que lhe fora apresentado e volta a cometer os mesmos erros de outrora. Isso se deu durante o Antigo Testamento, quase que por completo; entretanto, com a vinda de Jesus Cristo, o Verbo se fez carne (Jo 1,14), e tudo aquilo que haviam ouvido até então é realizado em fatos concretos. Isso facilitou o entendimento do povo, que passou a executar a Palavra de Deus, e assim continua até a atualidade, com a Sua graça.
“Exorto-vos a levardes uma vida digna da vocação que recebestes” (Ef 4,1). Paulo dirige tal mensagem aos Efésios, povo da Ásia menor (atual Turquia), para que criem coragem e anunciem a sua fé em meio aquela terra. Recebemos, a cada dia, uma exortação para sermos testemunhas dessa fé que recebemos dos apóstolos e a vocação para sermos discípulos missionários. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Chamado esse a uma vida de conversão, a uma vida de total entrega a serviço dos irmãos. Assim como Jesus disse aos apóstolos, diz também a cada um de nós hoje: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). Somos todos missionários do Senhor, encarregados de pregar a todos os povos e nações.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O jovem e a Jornada

Por D. Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo do Rio de Janeiro

Estamos a 45 dias do início da Jornada Mundial da Juventude aqui no Rio de Janeiro. Os últimos e mais definitivos trabalhos prosseguem com rapidez para que estejamos prontos para acolher os jovens do mundo inteiro nesses abençoados dias.
Os símbolos da Jornada – a Cruz peregrina e o ícone de Nossa Senhora – já estão no Estado do Rio de Janeiro e no início de julho chegarão à nossa capital para a última etapa da peregrinação.
As últimas visitas dos responsáveis pela vinda do Santo Padre já aconteceram e as últimas definições, juntamente com as autoridades brasileiras, já foram tomadas.
As famílias, escolas, quadras, salões se preparam para acolher jovens de 170 nações e com 55 idiomas. Os locais de catequese, com seus respectivos idiomas, já foram definidos e começam a ser preparados com alegria pela comunidade paroquial local.
As viagens marcadas e os deslocamentos agendados, cidade organizada e preparada para receber um evento diferente: jovens que querem ser protagonistas de uma nova humanidade na história! Para isso querem simplesmente viver a vida cristã como ensinou Jesus Cristo e, em diálogo com todos, propor tempos novos.
Nesse sentido, a liturgia deste domingo é para nós um belo e importante sinal. Fala da ressurreição do filho da viúva de Naim. A consternação geral com o filho único de uma viúva sendo sepultado nos fala de limites humanos. Demonstra toda a questão da dor do momento e a incerteza do futuro. Nas tradições da época, uma viúva é alguém desamparada. E mais: a morte de um jovem que, segundo os cálculos humanos, ainda tem muito tempo de vida pela frente, sempre desperta uma situação incômoda nas pessoas ao redor.